Estava me debatendo com descendentes muito fortes, e muitos dos sinais de presença de ascendentes já não eram mais visíveis a partir do meu planador. Eu já fazia mentalmente todos os preparativos para um pouso externo ao aeroporto, quando a voz de meu instrutor ecoou na cabine, invadindo minha estratégia com um chamado: "aplique MacCready...!" 1
Imediatamente reposicionei minha expectativa de ascendências no variômetro, que me indica a queda ou a ascensão do avião, e aumentei a velocidade do planador, mesmo sabendo que isto poderia custar a perda de altitude. Mas, em poucos instantes, consegui encontrar uma nova ascendente. Embora isto possa parecer um contra senso, a razão da descendente com a velocidade aplicada poupou-me tempo, permitiu que eu passasse mais rápido pelas descendentes e realmente encontrasse uma nova ascendente.
A grande sacada nesta teoria é acertar meu reposicionamento corretamente, ou seja, ser capaz de ter uma correta percepção do valor da ascendência a ser encontrada lá na frente, pois disto dependerá o êxito ou fracasso na empreitada.
Portanto duas atitudes são relevantes: a primeira é saber que poderei ter ascendentes no caminho, terei que quantificá-las e persegui-las como meu objetivo permanente. A segunda é aumentar minha velocidade mesmo estando em descendência.
Saímos do Carnaval e até então vimos muitas descendentes bravas em nossos céus. Se observarmos o Horizonte Norte, há descendentes muito fortes que nos dão a sensação de que durarão um bom tempo.
É tempo de colheita, os balanços estão sendo publicados e as notícias nos surpreendem. No Hemisfério Norte a colheita será péssima porque estarão apresentando os balanços do exercício de 2008 e, especialmente o último trimestre, foi muito impactante. Este tipo de notícias pipocará até o final do primeiro semestre.
Já no Brasil os balanços da maioria expressiva das empresas mostrarão resultados muito bons e pagando um bom Imposto de Renda. Veremos certamente alguns setores bem mais afetados, como o caso do automotivo, etanol, alguns setores agroindustriais, alguns setores da infra-estrutura e especialmente máquinas e equipamentos, especialmente 'máquinas agrícolas e implementos.
No Hemisfério Norte o pessimismo tomou conta de vez e as quedas em bens duráveis estão entre 15 a 30% ou mais. Porém, na área de consumo na Europa, ainda não se nota um arrefecimento forte, justamente o contrário do que vemos nos Estados Unidos.
E a pergunta que se faz é: alguém está aplicando MacCready?
O programa do presidente Obama de reestruturação da economia prevê, para o leitor atento, um novo viés que se der certo levará os Estados Unidos a se tornar uma nação muito competitiva e bem menos dependente do setor financeiro. O programa parte do princípio de que os EUA são esbanjadores de energia, portanto improdutivos e, consequentemente, poluidores. Pela bandeira da sustentabilidade e da competitividade, Obama irá proporcionar à industria norte-americana a opção de buscar eficácia energética com opções ambientalmente limpas.
Assim, as indústrias que se virem obrigadas a poupar energia irão buscar produtos menos intensivos em energia e materiais e de maior valor agregado. O consumidor em suas aquisições terá que buscar opções por produtos poupadores de energia.
Como consequência, a indústria automotiva, linha branca, eletro eletrônica, papel e celulose, aço, entre muitos outros, terão que realizar um esforço de produtividade muito grande. E para este esforço aparentemente serão dispensados muitos recursos. Sem falar do agronegócio, para este setor o recado de Obama foi mais do que direto, alegando que as grandes corporações norte-americanas não mais necessitarão de subsídios em 2010 (o primeiro ano de influência orçamentária da nova administração), aliviando o caixa do tesouro em cerca de US$ 10 trilhões.
Mas este não será o melhor efeito, pois com esta decisão, facilmente poderá abrir as negociações de DOHA se assim quiser. Obama trabalha com uma visão de que os EUA devem voltar a ser líderes na indústria mundial, daí também seu grande foco na educação.
Provavelmente as ações dos EUA no campo da eficácia energética e estímulo às energias renováveis oferecerão um enorme campo de créditos de carbono, que certamente será um financiador parcial deste movimento. A demanda por créditos aumentará muito em função das diretrizes e não em função de Kyoto. Bem, Obama está voando uma rota bastante arriscada, terá descendentes fortes no meio do caminho, vai depender muito de conseguir achar algumas medidas que aumentem a velocidade da economia. O grande risco que vemos aumentar é a redução da velocidade das concessões de crédito (que é bem mais perigoso do que o volume).
Outra que parece entender MacCready é a China. Esse país viu o tamanho da encrenca, depois de ter aprendido rapidamente que somente ações de rápido vigor poderão incrementar a velocidade, reduzindo o impacto negativo.
O pacote chinês anunciado nesta semana tem características de demandas imediatas, embora se trate principalmente de infraestrutura. Lembrando que para fazer três rodoanéis em torno de Shanghai a China levou menos de cinco anos; em contrapartida, o nosso rodoanel em São Paulo, que foi iniciado por Mário Covas e por isto leva o seu nome, ainda não foi concluído...
Se voltarmos os olhos para o Brasil, estamos com MacCready ou não?
Se observarmos o consumo, ainda que tenha perdido vigor, não está negativo e, portanto, ainda não temos descendentes, mas precisamos ficar muito espertos. Com a redução do IPI, o setor automotivo recebeu velocidade para sair mais rapidamente da terrível descendente que surgiu em dezembro. Fica evidente que, para a economia real, este tipo de ações aumenta de imediato a velocidade. "Do more with less" diria MacCready, olhando esta medida.
Medidas para o etanol poderão reverter a situação, se na viagem do presidente Lula a Washington para visitar Obama, o presidente pudesse obter de Obama a possibilidade de suprir neste ano os dois bilhões de litros de etanol faltantes aos Estados Unidos, depois que eles elevarem sua mistura de 7% para 10,2% já anunciada.
Novas formas do repasse dos financiamentos do BNDES às indústrias que já tiveram sua aprovação, agilizando o crédito concedido mas ainda não liberado, irá certamente aumentar a velocidade. O BNDES precisa imprimir muito mais velocidade em suas liberações para não virar um banco de obras já acabadas. Sem falar do spread bancário e da taxa de juros...
Campo minado é o da exportação. Embora tenhamos um câmbio bom, os mercados estão ficando menores, tanto pela demanda deles próprios quanto por causa da competição. O risco dessa competição é que ela comece a afetar os preços, reduzindo assim os resultados.
Por mais que se critique o presidente por ser talvez otimista demais ao colocar a meta de crescimento do PIB para 2009 entre 3 a 4%, não podemos deixar de considerar que ele deu "valor à sua ascendência" e vai trabalhar em cima dela. E se a meta ficar apenas entre 1 e 2%, ainda assim será um bom resultado.
Passei o Carnaval em velocidade elevada e, para março, estimei minha meta para uma ascendência bem moderada. Nesta primeira semana estou vendo meu variômetro dar sinais de reduzida queda, algumas vezes chega até a zero. A Bolsa tem sido um dos sinais, mas melhor ainda foi a ocupação de algumas indústrias, que estavam com 50% de ociosidade, mas já apontam pedidos em março que as levarão a chegar a 70% de sua capacidade.
Bolha ou não, o negócio é encontrar térmicas, e fazer o certo de maneira certa desde a primeira vez.
Faça como MacCready. Faça mais com menos!
1Paul B. MacCready Jr. (1925-2007) foi um construtor norte-americano e exímio piloto de planadores que se utilizou do princípio "Do more with less", e ganhou vários campeonatos mundiais de planadores. Hoje sua teoria é aplicada em inúmeras aeronaves.
Ingo Plöger é empresário, engenheiro economista, conselheiro de empresas nacionais e internacionais e presidente da IP Desenvolvimento Empresarial Institucional. Escreve mensalmente na InfoMoney, às sextas-feiras.
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